Por dentro da organização criminosa
Em 2009, só as empresas-laranja movimentaram R$ 568,4 milhões. No mesmo período, o patrimônio declarado do grupo foi de R$ 24,7 milhões
Aiuri Rebello
Foram quase dez anos de investigações para que a Polícia Federal conseguisse desvendar como funciona a organização criminosa que começou a ser desbaratada durante a Operação Alquimia – desencadeada em 17 de agosto. Ao todo, 24 pessoas foram presas temporariamente, acusadas de participar de um megaesquema que desviou pelo menos 1 bilhão de reais em impostos entre 1997 e 2009. Uma das maiores redes de sonegação de impostos já descoberta na história do Brasil.
Para estabelecer a relação entre as 90 empresas envolvidas (47 delas de fachada ou fictícias) e suas 75 filiais, espalhadas por 19 estados – além das 27 empresas de fachada sediadas nas Ilhas Virgens Britânicas – a PF cruzou informações sobre as movimentações de compra, venda e transporte de produtos químicos diversos, universo de atuação dos acusados, e descobriu que, de uma forma ou de outra, todas faziam negócios entre si. Basicamente, as companhias de fachada compravam os produtos químicos e os repassavam para as de verdade, sem pagar nenhum imposto, especialmente o ICMS. Quando a fiscalização estadual ou federal descobria a sonegação, a empresa de fachada, constituída na maioria das vezes em nome de “laranjas”, evaporava e deixava para trás a dívida com o fisco. O pagamento feito às firmas fictícias ia parar nas Ilhas Virgens e, depois, o dinheiro voltava para a Sasil Comercial e Industrial de Petroquímicos Ltda. e para seu presidente, Paulo Sérgio Costa Pinto Cavalcanti.

A trama era tão complexa que exigia a estrutura de uma verdadeira organização criminosa, no melhor estilo das máfias italianas. Pelo menos 165 pessoas espalhadas pelo Brasil faziam parte da teia. Cavalcanti e cinco parentes são apontados como os chefes e principais beneficiários do esquema. Abaixo deles, 13 gerentes ajudavam a comandar o grupo. Outros quatro testas de ferro e 21 "laranjas" abriam e fechavam as empresas-fantasma pelo país. Junto com eles, mais 26 pessoas eram sempre escaladas como testemunhas nos contratos de abertura das diversas firmas. Outras 35 atuavam como procuradores do bando, encarregados de movimentar as dezenas de contas bancárias. Além dessa estrutura, 38 pessoas atuavam como colaboradores – contadores, advogados e técnicos em geral. Por fim, ainda existiam 23 sócios do grupo em empresas legais, como a Sasil.
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